domingo, 2 de outubro de 2016

Morar em amor ou em Roma

Se a paixão é um risco e o amor um rabisco
Ou vice-versa, verso e vice
Rabisco amor em amora, sem querer ir embora. Morar em amor ou em Roma, ao contrário. O Coliseu, o Camafeu, as asas que me deu ou não necessariamente.
Arrisco, arisco, esquivo, arquivo, há risco.
Remar em paz, palavras, frases, fases, luares, lugares
Distantes. Rabiscar, colorir, repintar, rimar com letra, alma, coração e calma.

Rima ou remo, amor e além, entre pressa, pressão, preguiça, perfeição, destino, fatalidade, banalidade, idade, razão ou a falta de.

Entre razão, coração, vice-versa, verso.
Versão, conversão, coração de novo, versar, conversar sobre
A idade para não ter razão, somente por vezes,
Entre sim, não, talvez,
Entre colibri, colo, jardim e laço,
Entre a água, o arroz, a colheita, a coleta,
Entre a larva, a borboleta, as estações, a primavera...
Morar em amor ou em Roma.


O Coliseu, o Camafeu, as guerras, a paz, a Itália, as asas, as casas, as cartas, as cores, as construções, as paixões, as habitações, os cristãos, os conflitos, os aquedutos, os relatos, os retratos, as fotografias, o passado, gente que foi – amor ou amora – embora. 
O jardim novamente, a bailarina, seu colã, seu colar, seu olhar, seu caminhar, seu passo, seu compasso, seu pas de deux.
Seu pas de chat, seu chá, seu planeta, seu universo, seu inverso, seu mar, seu infinito particular, seu astronauta, sem tradução. Roma, Coliseu, Vitória, vitórias, Camafeu, ágata ou água. 
Imortais e intraduzíveis.











Ps.: Inspirada por Os Paralamas do Sucesso, Pitty, Tiê e outros tantos. Tendo a Lua. <3

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Do glossário de Clarissa

Para Clarissa, aquele dia havia sido um daqueles em que a escrita a convocara, não a acadêmica... E não era possível negar. Então, ao olhar para a frente, começara a escrever e descrever a posição dos objetos. Vira dois passarinhos, um sobre a mesa da sala, outro sobre a gaiola sobre a mesma mesa. O passarinho sobre a gaiola foi feito de madeira. A gaiola sob o passarinho continha uma vela apenas e não ficava fechada, mesmo que não houvesse passarinho em seu interior. Clarissa olhara, através da cortina branca da sala, de um lado, para seus quatro mini cactos, tão fofos de tão minis, mas mais crescidos do que antes. 




Do lado oposto ao de seu pequenino jardim, olhara para a máquina de escrever, ao lado da orquídea e da sua mais nova caneca, com uma pequena flor dentro e escritos em seu exterior. Naquele espaço, neste texto e contexto, a máquina de escrever se posicionara sobre um móvel antigo, também de madeira, presente do pai, próximo a dois quadros nem tão antigos quanto a máquina preta de escrever. No móvel, parte de sua coleção de canecas guardadas, que aguardam novas xícaras, souvenirs, e quem sabe canetas, até então em outro espaço. Flores, fluxos, sons e quadros não faltam no ambiente, nem porta-retratos. Sobre o móvel antigo, três deles. Três miniaturas também e uma bailarina, apenas uma.



Não é novidade que cada um lida de forma distinta com seus próprio espaço, com seus compassos, passos, sentimentos, espaçamentos, contextos, circunstâncias, textos, lembranças e que, no decorrer do tempo, isso se altera. Clarissa era do tipo que gostava de dar e receber cartões. Comprava cartões nas viagens que fazia, sem destinatário em mente, para levar na mala e guardar em sua caixa de cartões e memórias, até que encontrasse a pessoa que fosse “a cara” daquele cartão x ou do y. Cartões em si, talvez não sejam tão belos, mas as palavras que preenchem cada espaço dos cartões sim... Essas sim! As letras, as linhas e a organização de letras em palavras, de palavras em frases, de frases e pontuações, até o final, constituem o cartão em si. 





Mas o mais importante são as emoções por detrás das letras, linhas e lições. Então, o que dizer sobre cartões aleatoriamente comprados, que se transformam em cartas, após escolhidos, a dedo, os destinatários? Eles completam o que as pessoas nem sempre dão conta de dizer pessoalmente, em voz alta e claramente. Eles, os cartões, revelam momentos pontuais de um sentimento, ou de vários deles, que perduram ou se modificam, de alguma forma, a se guardar na memória por meio de algo além de um papel. 


É como se cartões fossem glossários de sentimentos, ao traduzirem emoções um tanto quanto obscuras, por vezes, em ordem cronológica, quando datados, os cartões, em palavras a serem lidas e, além, interpretadas. É como se fossem dicionários de sentimentos. O que dizer de um tradutor de substantivos, sentimentos, satisfações  e outros tantos? Se o glossário fosse de Clarissa, traria no início, admiração, afago, afeto, alegria... E amor, claro! Admiração, entre fotos, fatos, canções e afetos, o Sol lá fora já posto, as nuvens em movimentos lentos, a chuva passada, aquela que levou o cheiro de grama molhada da cidade. No dicionário de Clarissa, posicionava-se a admiração logo no início, caminhando lado a lado com o amor, em dias nublados ou nem tanto; chuvosos ou nem; em noites mal dormidas ou nem.



Há quem diga que um glossário de sentimentos deve, necessariamente, preservar para todo sempre a palavra Amor. Ah, o amor, esse contentamento descontente; esse mote de poemas; essa ferida que dói e não se sente, mas por vezes sim; esse sentimento desejado por muitos; vivenciado inclusive pelos relutantes, que não o desejam; descrito por poetas, relatado, escrito, traduzido de diversas formas e experienciado por reles mortais. Há quem diga que um glossário assim não é feito de um ABC qualquer, pelo contrário, requer dedicação e um punhado de canela e cor no coração, desde o início, preferencialmente. 



Há quem diga que bom mesmo é se o glossário, depois do C, de coração, não contivesse o Desamor, escondido na mala da esperança de se tornar um dia outra coisa, desde que Bela, entre as letras A e D. Culpa e Compaixão começam com C, mas não valem. Decepção e Dó, esquece-se, embora existam. Só o dó do piano que cabe no glossário de Clarissa. Logo após, já na letra E, vem a esperança, não necessariamente em forma de inseto, não necessariamente pintada de verde, mas acompanhada, muitas vezes, da expectativa. E sobre Expectativa, o que dizer, por sinal? 


Pois bem, elas sinalizam que podem vir Decepções pela frente, embora no glossário as Decepções estivessem antes, ainda na letra D. Daí vêm as letras F, com suas Frustrações e G, com toda a Gratidão que houver nessa vida, um punhado maior de Amor e alguma dose de Antimonotonia. Do I o glossário inventa que não há inveja no mundo e nem infelicidade, até que se prove o contrário, acha-se graça daí. Clarissa, em seu glossário, pula algumas consoantes, J, K, L, M, N, e também a vogal O, já que o Ódio, a Ostentação e as Mágoas merecem morar longe. Chega-se, então, à letra P. 


Bom mesmo é que o glossário nunca contivesse algum Ódio ou sentimento similar, mas o Perdão logo após o O compensa. Poderia conter, ainda na letra P, paixão de sobra, mas essa não se cobra, não se empresta, não se vende, nem se negocia, apenas leva à beleza e à inquietude.



Se fosse musical, o dicionário de Clarissa conteria O Quereres do Caetano, ou no R, “aqui, ali, em qualquer lugar", a Rita, a Lee, cantando Beatles em forma de bossa. No S, o glossário de Clarissa seria composto por diversos sambas. Um salve inclusive ao Saravah, afinal é melhor ser alegre que ser triste e a alegria está no início. Nos arredores do T, teria tanto a dizer o glossário de Clarissa... Cantaria até um pouco de tristeza, só para fazer um samba com beleza, esquecer o Sofrimento do samba e afastar qualquer Tédio. Ao passear pelas letras U, V, X e Z, Clarissa lembraria nada mais nada menos que seu glossário é apenas um tipo de dicionário e que os sentimentos são um tanto complexos para breves descrições formais. Como tal, glossários desconhecem o significado de muitos verbetes que os humanos insistem em traduzir, abreviar, citar, colorir ou descolorir, concordar, desenhar, desdenhar, desenvolver, desfazer, editar, deletar, pintar e pluralizar. No vocabulário dos glossários, cheios de substantivos, os sentimentos talvez não levem outros tantos, como nos cartões com destinatários e nas cartas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Da carnavalia de Clarissa, o que importa?

E por aquele carnaval Clarissa se apaixonaria... Para Clarissa, aquele era um carnaval em que não esperava nada além do próprio encontro consigo, de um punhado de amor-próprio, de estudo, além de meia dúzia de ovos na geladeira, um suco de caju, maracujá ou manga; uma ida ao supermercado - apenas uma bastava -  ou ao cinema, ao qual uma não bastaria. Ela, que fazia tapioca de banana e que, por vezes, ia à feira de quarta-feira, que não estava à toa na vida, que não pensaria ver a banda passar cantando coisas de amor, viu além... Viu várias bandas passarem, viu a Julia, a Luiza, o Vitor; ouviu as marchinhas, ouviu o Chico e o Gil e mais... Talvez não tivesse escutado tantas canções e coisas de amor cantaroladas, mas quem liga? Deixe ela dançar, a menina dança. 

E quem sabe amanhã ou depois tudo não voltasse ao normal?! A casa em ordem, a papelada, a pipocada, os pastéis e mais papéis, os artigos, os móveis antigos, a máquina de escrever, a decoração com flores, a falta dos blocos, das marchinhas e daquela carnavalia toda preenchendo a avenida. As louças, os livros, os lenços, as legendas e traduções dos filmes e das conversas, os confetes, os doces, os detalhes, os desfiles, os discos, os dissabores e sabores da vida, enfim, tudo aquilo que se pode guardar, inclusive na memória, inclusive de um ano desses que a memória não deleta nem por reza. E para quê deletar? 

Para Clarissa, não importava se a normalidade do amanhã não viesse tão recheada de Chico ou de qualquer marchinha de carnaval digna de se guardar como lembrança a sete chaves, nas fotografias, nas fantasias e nos retratos nem sempre tão pequenos daquela carnavalia. Não importava se o amanhã viesse, ao invés disso, acompanhado por uma monotonia típica de uma segunda-feira. 

Naquele dia, não importava, poucas horas valeriam o carnaval por completo, mesmo com o tempo de estudo, mesmo com todo o calor do verão, mesmo com os afazeres domésticos, com todos os "embora" e "contudo”, com todos “todavias” e “poréns” de todo o dia. Naquele instante, naquele carnaval, os olhos de Clarissa brilhavam mais do que as porcelanas de sua estante; o sorriso dela parecia tão colorido quanto um arco-iris e estava preenchido por um misto de sentimentos, como de cores, detalhadamente enriquecidos pela presença dos amigos, das canções, das fotos novamente, dos fatos, de bandas esperadas, de músicos inesperada e aleatoriamente preenchendo a rua toda de positividades e daquele clima de carnaval de noventa e tal. 

O resultado daquela mistura não era tão preciso, pois a exatidão para Clarissa nem sempre bastava e ela acreditava que a reza e a escrita não eram tão próximas da matemática quanto a música. O resultado daquele misto de sentimentos não era tão preciso, embora precioso fosse. E Clarissa teria sido abordada por alguém que se lembrara dela de outros carnavais? Quem é ela, quem é ela? E Clarissa confessava a si mesma o quanto a escrita descrevia os frutos daquele feriado prolongado. 


Lembrava-se da frase “Kafka fez da arte sua reza” e rezava intensamente em formato de palavras inundadas por rimas e ritmos... ao colocar no papel linha por linha, letra por letra, emoção por emoção, o que sentira naquele carnaval, que logo voltaria ao normal, mas que iria além de Chico e de canções de amor.

Ps.: "Vem pra minha ala que hoje a nossa escola vai desfilar. Vem fazer história que hoje é dia de glória neste lugar. Vem comemorar, escandalizar ninguém.
Vem me namorar, vou te namorar também. Vamos pra avenida, desfilar a vida, carnavalizar", já dizia a música.

"Eu conheci uma guria que eu já conhecia de outros carnavais, com outras fantasias", respondia o outro som.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Ai de ti, bem-te-vi

Bem-te-vi
Na brisa
Em que, concisa e imprecisamente, te perdi.
Bem-te-vi
Belo, amarelo, construindo elos e castelos
De som.
Cantando porvires, amanhãs
Encantando as manhãs
Sonoras e sonolentas.
Bem-me-vi
Imersa em ti, ainda, ao acordar.
Ali, avistei flores, vislumbrei voos e pássaros.
Ali, estática fiquei
Ali, permaneci.
Aqui, em meu sono dorme, enorme
O que os sonhos se encarregam de cuidar
E aqui, ai de ti, de me lembrar que te esqueci
E aqui, ai de mim, de me esquecer
Que, outrora, bem-te-vi.




domingo, 20 de dezembro de 2015

Um poema para chamar de meu

De todas as rezas, escrita
De todos as músicas, erudita.
De todas as pinturas, aquarela
De toda a liberdade, bela.
De todos os erros, efeitos
De diversas obras, tela.
Dos feitos e efeitos adversos, cautela...

De toda a beleza, a natural
De toda a natureza, respeito.
De todo o medo, coragem
De toda a seriedade, alguma bobagem.
De todos os pássaros, bem-te-vi
De todas as pessoas, a si...

De todas as decepções, tentativa
De toda a solidão, beleza.
De toda a beleza, atrativa
De todas as bebidas, vinho.
Dos vinhos e vindos da vida, os próprios...

Dos espelhos, nem tanto nem tão pouco
De tudo, por tudo e para tudo, escolhas.
E de todas as escolhas, as feitas...
de
fin
iti
va
mente.






quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Das escolhas



Escolha: uma palavra, sete letras, sete dias da semana. Escolha: três vogais, quatro consoantes e um caminho a percorrer. Escolha: a completa solidão, a presença incompleta, algumas dores, outras alegrias, no meio da deliciosa liberdade de decidir o próprio trajeto. Entre um chá e outro, as louças a lavar, os trajes, o varal, os tropeços, os calendários e os cronogramas a serem alcançados. Trapos e traços, pratos e prateleiras, parcerias e jogos, lembranças e retratos da noite anterior, aquele som animado para incentivar a limpeza de tudo e as recordações do que havia se passado em míseros meses em um apartamento que se tornava cada vez mais um lar. Quatro meses da mudança, somados de três semanas para reviver os milhares de chás que se tomara ali, as poucas sopas e as saladas em menor quantidade ainda, ainda que presentes. Quase cinco de mudança, nove letras de “lembrança”, sete de “escolha” e de um mundo de possibilidades desvendadas e a descobrir entre a troca das fronhas da cama do quarto de dormir. 

Enfeites de Natal aqui, molduras colocadas ali, papéis, porta-retratos, pipoca, paçoca, pregos, aquelas aquarelas enfim penduradas, as sacolas de supermercado, a retornável da feira de orgânicos, as flores da feira, a lista incompleta, os itens esquecidos, os quadros e os fardos de determinados momentos em que o estar só não basta. Embrulhos de tristeza, pacotes de felicidade, misturados em sensações de liberdade e solidão. Feijão, memórias, histórias, canecas, canetas, conexões, colchões, colares, colos, cômodos, incômodos, simples felicidades, apertos, apetrechos, aparelhos, alimentos apimentados, amabilidades, mais porta-retratos, fotografias, portas, janelas já limpas. Listagem do que falta comprar, consertar, construir, colar, acomodar, aceitar. Anotações, anedotas, notas, novidades, notícias, novos móveis, antigas amizades. Rotinas, climas, óculos, ônibus diferentes, carro, bicicleta. Atitudes, atividades, arroz integral, a conta a vencer, a planta a aguar, o lixo a descer, a falta de uma TV que nunca havia sido tão sentida, a nova tevê, os filmes e o DVD, a responsabilidade, as possibilidades, a vida adulta. Pacotes de porcelana, de esperança, de realidade, de receio, de falta, de conforto e da falta dele, por vezes. 

A partida de casa, a saída, a escolha, a tão difícil escolha, aquela que liberta e crucifica. Aquela que, tal como o amor, é dolorosa, embora deliciosa; é positiva e necessária, embora temida. Escolher é: permitir-se partir quando for a hora; deixar ir embora parte de nós para que parte permaneça; tal como a saudade não é a ausência, mas o que importa de algo quando este algo se vai ou se fora e, no fundo, o que realmente importa é como lidamos com a ida, com a transformação, com a mudança, com a tal da escolha. Porque, no fundo, no fundo mesmo, o que permanece é um pouco desse pequeno tudo isso, no qual a zona de conforto já não cabe. Não cabe em palavras e poemas. 
Não há vagas para o comodismo neste lar. 
Não há vagas.

"I'm looking for a place to start
 And everything feels so different now
 Just grab a hold of my hand
 I will lead you through this wonderland"

Ao som de: Yellow light.





segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Dos poemas sem título e sem pontuação

Eu queria um motivo Que a pena não quer me ceder
Bem daqueles que inundam a vida inteira
Dos vizinhos Dos morangos Do terreno ao lado
Dos cavalos alados Dos sonhos Das esperanças sonoras
Das horas por vir Dos poemas que nos olham
Das casas Dos amigos Dos novos Dos antigos
Dos chás Dos orixás e Dos xodós
Das agendas Das encomendas Das tendas
Das vírgulas que não vieram
Das promessas que também não
De Janeiro a Janeiro ainda virão
Eu queria um poema Destes que a pena ainda não cedeu
Do imaginário Do cotidiano Dos verões sem preocupações
Dos concertos Dos concretos Do côncavo Do convexo
Das cidades Dos sítios Do só e do acompanhado
Dos contextos Dos pretextos Dos pretendentes e dos pretéritos
Dos textos sem pontuação Da falta de discussão
Eu queria um motivo Um poema Um presente
Que a pena agora já cedeu
Você eu Motivos A poesia do momento

Que inunda aquela vida inteira