sexta-feira, 8 de maio de 2015

Você Vai. Acredite! E agora?

Você Vai. Acredite! Em algum momento da vida, você vai se deparar com diversas questões [ou várias delas], acredite! Mais cedo, mais tarde ou ao longo dela toda, da linda vida, da minha, da sua, da deles, da nossa, das nossas. Daí, quando o momento chegar [se já não tiver chegado], vai pensar no nosso pequeno PlaneTinha Terra, inserido num sistema cheio de Sol [GGGGG], todo Solar [MVTMJSUNP], fácil de memorizar quando pensamos, ainda menores [ou não], na frase "MINHA VÓ TEM MUITAS JOIAS, SÓ USA NO PESCOÇO". Uma frase assim é fácil de memorizar, certo? Pode ser desenhada aqui também, ó, em forma de texto o desenho sai assim: MINHA (Mercúrio), VÓ (Vênus), TEM (Terra), MUITAS (Marte), JOIAS (Júpiter) SÓ (Saturno), USA (não de Estados Unidos da América, nem do verbo usar, mas de Urano), NO (Netuno), PESCOÇO (Plutão). Pronto, mais fácil, até que venham os astrônomos com mais novidades e baguncem tudo.

Bem, pensa-se: no nosso tamanho pequeno, gigante e único at the same time; no posicionamento do Homem diante disso; na crueldade humana; na injustiça; nas guerras e nos conflitos; nas fotografias e em toda forma de arte que busca retratar percepções dos artistas sobre o mundo e sobre eles mesmos no mundo; nos desejos infinitos do ser humano e na finitude dos Recursos Naturais (RN); na mudança [ou não] do posicionamento do Homem em relação ao meio ambiente e a tudo aquilo que é Muito Superior [redundante ênfase] aos sistemas econômicos; no papel e na importância da água para o Planeta, sobretudo da salgada [uma vez que temos 2/3 de sua superfície ocupados por água, sendo 98% desses 2/3 de água disponível, de origem salgada, como o Sebastião, o Salgado, o economista fotógrafo] etc. etc. etc. Pensa-se em N, A, M, X, Y, Z possibilidades de um mundo melhor, pensa-se em etcETeras [Porque os questionamentos realmente são diversos e tendem a ser infinitos até que se prove o contrário].

Então, passa-se a desacreditar da bondade das pessoas, dos sentimentos bons delas, do que produzem de bom para as futuras gerações e da própria sustentabilidade desse sistema, dessa geração e desse modo de inserção do Homem no sistema. Passa-se a questionar a religião, a própria fé, a fé no amor. Acredite, até o amor será questionado em alguma altura da vida! Dito isso, existem algumas possibilidades e destaco aqui duas delas, a saber: 1) Você se posiciona no sentido de desacreditar de tudo o que há de bom e só acredita nos males da sociedade, no que empresas e governos colocam em bancas de jornais e revistas sem tanto critério de “revisão”. Acredita, indubitavelmente, nos dados apresentados pelos telejornais e, neste caso, a vida vira algo sem graça, insosso, totalmente sem tempero, sem pimenta, sem ketchup, mostarda e até Sem Sal [embora haja muita água salgada, mas a temperatura não ajuda a natureza e o Homem não ajuda a temperatura, nem a própria natureza], então, a vida fica triste; 2) Você filtra e questiona tudo mais ainda, ainda mais, acredita e desacredita, dependendo do contexto, mas com uma noção [ao menos]: A noção de que a bondade é silenciosa. 

Pausa. Silêncio para a bondade; Silêncio e, posteriormente, uma salva de palmas... Clap, Clap, Clap!

A bondade, além de silenciosa, é pequena, é percebida discretamente por ações [gestos, atitudes, comportamentos] simples, que nem sempre aparecem nos telejornais, embora existam, embora haja mais sangue do que tudo nos TeleJornais e nas bancas de jornais e revistas mal vistos e nem sempre bem revisados. Mas lembre-se: existem bancos que não transacionam apenas o seu dinheirinho, moedas e valores pecuniários; existem bancos que transacionam, além desses valores, outros. Transacionam órgãos que salvam vidas, transacionam sangue e vida! Bancos de sangue, por exemplo, são alimentados por pessoas e a bondade existe sim, acredite. Ah, o amor também, assim como a fé.

Enfim, a vida é uma arte, misturada com alguma ciência (ou algumas) e com um tal de Borogodó, sendo este intraduzível, ou quase, com um Q [ou C] de Charme. A vida é MESMo A arte do encontro “embora haja tanto desencontro” ao longo dela, como já dizia o poeta. Como já diziam e expressavam os poetas, os astronautas, as bailarinas e todos aqueles que escolheram, escolherão e escolhem sofrer por amor à causa maior, à vida, ao objetivo de suas vidas. Por amor à vida e à falta dela, da vida, que é bonita, é bonita, ita, ita, ita...

Já viu o pé de alguma bailarina ou a sapatilha de ponta de uma delas? O bolso de alguns poetas/artistas e as adversidades aos quais os astronautas se permitem viver, enfrentar, suportar... Aos quais eles se submetem? Já viu, já OUviu e/OU já sentiu? E agora? Acredita, desacredita, começa a questionar ou continua questionando?



quinta-feira, 30 de abril de 2015

Clube da caneca: muito além de uma boda de ouro... CaneCaPreferida.

Certa vez, Isabelle (que conheci por Tiago, que conheci por outro amigo querido, o Caio), ciente de minha coleção [pequeña, mas crescente, diga-se de passagem] de canecas, solicitou que eu escolhesse a favorita... Minha caneca preferida. Tarefa difícil, um desafio na verdade, para quem tem dificuldade de escolher apenas uma caneca, apenas uma banda, apenas uma atriz, um diretor de cinema, apenas um livro, apenas uma arte E/ou somente uma ciência. Enfim, a dificuldade de optar por algo, sabendo da qualidade de demais "AlGos", pareceu-me um desafio. Então, coube a mim aceitar o desafio e redigir um PetitTExtinho sobre a minha caneca mais querida. Não foi fácil perceber a mais importante caneca da minha coleçãozinha cheia de histórias, com canecas importadas ou não, nacionalíssimas. Não foi fácil porque meus olhos enxergavam todas como lindas, embora diferentes umas das outras. Não foi fácil perceber, mas... percebi. 

Ah, foi difícil também escolher somente uma fotografia, mas nada impossível de ser realizado. Compartilho aqui a caneca eleita e o material publicado no sítio dela, de Isabelle, em 15 de Abril de 2014. 

Entre xícaras, linhas, cafés, histórias, chocolates, memórias e principalmente ela, minha coleção de canecas, circula aqui a escolhida. A caneca que elegi para escrever sobre não foi comprada em Nova Iorque, nem importada dos Estados Unidos, não foi presente da vovó, não traz a figura da Mafalda, do Pequeno Príncipe, de obra alguma de Van Gogh, nem frases de Jane Austen, como as outras da coleção, mas merece igualmente seu espaço na prateleira. Nas horas vagas, além de me dedicar à música e apreciar cafés, participo de eventos, assessorando cerimonialistas na organização de casamentos e bodas, por exemplo. Cada momento da cerimônia, cada “sim” de uma noiva, cada declaração de um noivo é uma oportunidade de me emocionar. Eis que em uma destas comemorações parte dos brindes era uma caneca personalizada com a foto do convidado. Felizes da vida comemorando suas bodas de ouro, os anfitriões da festa presentearam tanto a cerimonialista como suas assistentes com a caneca personalizada. Faz alguns anos que ganhei e, desde então, não desgrudo dela, do início ao fim do dia, da cozinha ao quarto, passando pela pia, pela bancada, pela cama, até mesmo pelo chão e pela recordação. Ela é a mais utilizada das canecas colecionadas e o que a torna tão especial são as lembranças das ocasiões felizes das quais participei, colaborando, de alguma forma, para a concretização de momentos de comemoração na vida de diversos casais.

Ps.: O Café com chocolate possui imagens de dar água na boca... Acabo de comer bis, mas vale a pena olhar chocolates, cafés, canecas e textos. Eis o link: https://cafecomchocolate.wordpress.com/2014/04/15/clube-da-caneca-muito-alem-de-uma-boda-de-ouro/. 

Obrigada pelo espaço, IsaBelle, gostei de ter escrito sobre minha pequenina coleção!

sábado, 25 de abril de 2015

Acostumei-me a ser mar.


Não estou acostumada com um desejo que sinto somente pelo toque. Acostumei-me a sentir um olhar que deseja, embora evitando demonstrar qualquer desejo, embora encontrando o meu olhar discretamente, manifestando-se, embora de maneira reservada. Acostumei-me a ser um mar de palavras, de sons, de conchas e de grãos de areia. Um mar com um aroma peculiar. Um mar e, ao mesmo tempo, uma simples gotinha. Acostumei-me a abraçar gotas, pessoas, cousas e causas. Acostumei-me com um jardim sobre o mar. Acostumei-me a ser mar e jardim. Sem ti, sentir-me refrescante e florida como um mar cheio de flores sobre ele. 

É uma questão de ponto de vista, em um ponto cujo olhar não manifesta o que o outro sentido percebe. Ou manifesta, embora de forma obscura, não tão Clara.


domingo, 12 de abril de 2015

Percepções De uma viagem de ônibus Para passar a páscoa na vovó: De Projeto Clara Para Projeto Tamar.

Qualquer viagem vale a pena quando a alma não é pequena. Seja a própria viagem, seja sua viagem com uma passageira-flor ao lado, seja a viagem de todos juntos em um só ônibus. Ou seja, você e os demais passageiros do ônibus ou apenas as viagens de duas adultas jovens, neste mesmo ônibus, a respeito de si mesmas. Você entra no ônibus e avisa a uma das passageiras que ela havia esquecido um pacote lá fora: “acho que você esqueceu aquela caixa lá fora do ônibus. É sua né? Cuidado para não ficar lá porque o ônibus já está partindo”. Você senta no assento número 12 e a jovem ao lado precisa de um fone. Você tem dois e empresta um fone a ela. Mas vocês duas não utilizam o fone porque não param de conversar e, então, o fone já nem tinha sido mais necessário durante a viagem, porque havia ali muita conversa e muito compartilhamento de experiência, de chocolate, de memória... Nostalgias do início de uma páscoa de verdade.


Durante cerca de três horas e meia de conversa constante, chegam a mesmíssima conclusão da moral da história de "a lebre e da tartaruga". A sábia fábula tem como moral a conclusão de que “devagar se vai ao longe”, cada um com um jeito e uma velocidade, mas com a noção de que a persistência e o esmero levam à moral de que realmente devagar se vai ao longe [reforça-se aqui o Realmente se Vai]! Cada um no seu tempo, com variadas velocidades e cores, cada qual com suas flores e percepções sobre a viagem e sobre uma vida que ora é em preto e branco, ora colorida. O importante é pintar, desenhar, colorir ou até descolorir e descobrir. Colorir sozinha ou com seu priminho de apenas três aninhos. Pode ensiná-lo a desenhar corações, estrelas ou perceber que a visão dele sobre o Céu, as estrelas e os corações pode ser ainda mais linda. E se tais visões não forem comparáveis, ensina-se que não o são e que as dele podem ser tão belas quanto ele quiser e conseguir realizar [ou não] o que quiser. As percepções dos passageiros no mesmo ônibus são diferentes, o que é lindo: a diversidade de opiniões, em um ônibus qualquer que carrega passageiros em direção similar ou nem tanto. 

No caso do ônibus descrito, ia rumo à Minas, rumo ao interior de Minas, rumo ao pão-de-queijo, rumo aos doces da páscoa, rumo aos ovos de chocolate feitos em casa (aos comprados também para entregar a crianças que ainda não possuem), rumo ao sentido do feriado de páscoa, rumo à criança que deve haver em cada um de nós, rumo à vovó, rumo ao seu priminho, à brincadeira saudável, ao cantar, ao sorrir, ao dançar, rumo os rumores alheios de um um ônibus desconhecido ou rumo aos novos conhecidos que merecem ser mantidos, na memória das trocas de uma única viagem em conjunto ou ao longo do passar das horas, das fotografias que ainda podem ser clicadas com a câmera do celular ou de outro equipamento, das músicas e experiências que podem ser cambiadas, além do chocolate, além das lembranças que desejamos manter. Rumo ao passar do ônibus pelas paisagens, passagens e tickets, ao passar dos passarinhos, dos mares, das paixões, das tempestades ou rumo a uma nova visão do Sol, com admiração maior de seu movimento, desde quando nasce até que se ponha. Um novo renascer a cada dia e o movimento da Lua também. Não podemos virar “pessoas grandes” e deixar de admirar os corpos celestes. Quando pequena, uma amiga tinha uma amiga que fazia olimpíadas de matemática e astronomia. Como ela ia bem em matemática e em astronomia nem tanto, focou na matemática e acabou se esquecendo um pouco dos planetinhas. 

Voltando à viagem do ônibus, no final daquela parte da estrada e da conversa constante, uma das passageiras só tinha a pensar: seu projeto é longo, Tamar. Não ousaria dizer se você está no caminho certo, porque dele só você sabe bem, só você conhece tão bem quanto você seu próprio caminho ou, pelo menos, busca conhecer. E você busca, Tamar, o que te faz ainda mais bela. Sei disso porque vi além dos seus cabelos, que são lindos... Cacheados na ponta e lisos no início, um tanto quanto isentos de tanta vaidade e, ainda assim, muito belos. Belos, inclusive, pela espontaneidade deles e pela pessoa que enxerguei atrás deles, ou melhor, pela pessoa que movimentava aqueles discretos cachos no ônibus. Cachos como ondas no mar, maiores ou menores, mas há sim um mar em seus cabelos. E nos olhos há flores, dois girassóis especificamente, buscando a luz e o brilho do Sol, a energia luminosa dos 22, que poderiam ser 19, 25, 55, 85 anos ou além. Você parece buscar, Tamar, a energia luminosa da vida, em meio a uma escuridão que existe. 

Outra passageira se despediu do motorista do ônibus, agradeceu e desceu com sua criança. Os passageiros continuaram naquela viagem depois que você saltou, Tamar. As pessoas do banco da frente diziam que a viagem não tinha sido cansativa... Nada cansativa. Naquele momento, pensou-se que "a viagem tinha sido ótima, eu e Tamar nos conhecemos, nem usamos os fones e os celulares apenas registraram o momento a partir de algumas fotos". Enquanto íamos por aquele trajeto, a Marisa Monte e o Nando Reis já haviam anunciado que enquanto íamos pela manhã, em certas regiões, já anoitecia. Enquanto íamos por aquele trajeto, as crianças lá no ônibus [algumas atrás outras na dianteira] perguntavam continuamente “estamos chegando mamãe, estamos chegando”? Exatamente o que fazem as crianças em viagens longas de carro com a família. Milhares delas, na infância, ficam o tempo todo querendo chegar logo aos seus destinos [ou ao destino destinado pelos pais] para determinadas viagens.

Uma das crianças [pela voz, percebia-se, naquele momento, que era o mesmo menininho] dizia: “Estamos chegando né, mamãe?”. Suas perguntas [igualmente] constantes pareciam leva-lo a chorar porque ainda não havia chegado ao final destinado pelos pais. O mesmo menininho, lá no fundo do ônibus, gritava, ao mesmo tempo que falava de cores: “tem azul, amarelo; amarelo e azul”. Ele falava das cores que via, não das cores dos álbuns da Marisa, dos filmes de Almodóvar, nem das cores de Frida Kahlo; ou de demais musicistas, diretores, pintoras ou quaisquer artistas que talvez nem conhecesse. O menininho falava das cores que queria ver, conhecer e talvez pintar. O menininho continuava lá no ônibus perguntando à mãe sobre o tempo daquela viagem, o que, de modo traduzido para a linguagem infantil, significava “estamos chegando na vovó, mamãe”? Nem é na casa da vovó que a criança falava, era direta e sinceramente “na vovó” que o menininho queria chegar, embora o destino da família fosse a casa da avó do menino. Na visão das “pessoas grandes”, eles dois [menino e mãe] chegariam a uma casa, a uma construção de concreto, construída por pedreiros com tijolos, cimento e demais materiais de construção. Com tintas de diferentes preços e marcas para colorir casas, lares e construções de modo geral. Os dois poderiam chegar a uma mera casa ou a um lar, cheio de possibilidades. Poderiam chegar à casa ou ao lar da vovó.

Enquanto o ônibus seguia sua direção, uma pessoa adulta não parava de olhar, só porque você não tirava a lapiseira grafite 0.7 [que poderia funcionar com grafite 0.5, ser lápis, caneta, etc.] do seu bloco de notas e desviava o mínimo possível o olho do bloco. O cara lá na frente dirigindo o trajeto [conhecido como motorista do ônibus], disse: “Martins Soares”. Então, já em Minas, depois da fronteira com Espírito Santo, percebeu-se que realmente estava perto de Manhuaçu. Estava chegando mesmo. Você, que havia conversado sobre seu percurso com a Tamar, que havia escutado bem o dela, que tentava dar conselhos sobre os cursos que poderiam ser feitos, desfeitos ou refeitos, levava do ônibus algo além de suas malas, das bagagens e das memórias. Levava as percepções do ônibus, de uma viagem de ônibus e de algumas viagens interiores dentro de um ônibus. 

Você levava as suas ideias e o que havia percebido em algumas horas ao lado de outra pessoa. A outra pessoa havia saltado antes e, em breve, você saltaria, sabia que saltaria do ônibus depois da Tamar, porque os destinos eram diferentes. Aconselhava a pessoa ao lado de que as experiências são válidas, já que aprendemos com elas o que fazer ou, pelo menos, o contrário... O que não fazer! Buscamos aprender e a Tamar parecia buscar... Então, na realidade, a Tamar talvez nem precisasse de tantos conselhos, mas conselho é mesmo uma forma de nostalgia. Então, depois que ela saltou, você deixou as demais pessoas com suas percepções e não compartilhou a sua com mais nada nem ninguém, além do próprio bloco de notas. Enquanto o ônibus não chegava ao destino, você anotava, escrevia, aguardava, tentava guardar o bloco e ficava com as perguntas, as respostas, as palavras, as vozes e a pureza das crianças falando sobre cores, sobre a chegada ou sobre os caminhões e caminhos da estrada. Você decidiu [e decide] ficar com a pureza das respostas e dos questionamentos infantis, porque isso também é vida... A vida é bonita, é bonita e é bonita mesmo! Você acredita que é e sente que ela, embora finita e injusta, vale a pena. 

Você sabe e sente que a vida vale muito e que uma hora a viagem acaba, descalça no parque, ou não, deitada em outro lugar, com pessoas queridas ao redor ou nem tantas. Você sabe e sente que o ônibus vai chegar em breve no interior de Minas e que qualquer viagem, em algum momento, chega ao fim, porque [assim como para cada panela há uma tampa] para toda viagem há um destino final. Então, as respostas das crianças são respondidas pelas mães “sim, chegou” e aqueles pequeninos seres continuam falando das cores. A vida continua bela se repararmos as simplicidades dela, da preciosidade denominada vida; se repararmos alguns comportamentos das crianças e repararmos nelas, em vez de tentarmos modificar tanto as "pessoas grandes" que não querem ser reparadas. Porque as crianças continuam falando das cores e o amarelo já havia virado Yellow no ônibus. E elas continuavam falando das cores...


O que importa, além de observar os pequeninos, os pequenos detalhes, o meio ambiente e nem sempre tentar reparar os grandes detalhes, nem as "pessoas grandes", é incentivar algumas mudanças nas pessoas adultas que você acha que merecem e que podem ouvir. O que importa, além de si, é o amor que você dá e recebe até o ônibus chegar à parada, ao destino final dele, com um passageiro saltando aqui e outro ali, com as crianças comendo guloseimas e falando até dos esportes que ainda não praticaram e de cores ao mesmo tempo. O que importa é cada passageiro, com uma história e com suas respectivas "morais da história", algumas registradas em livros, inclusive infantis, outras registradas na memória e no coração das pessoas. O que importa também é querer viajar e se permitir ser o passageiro do ônibus ou da moral da história. Permitir-se, ao final da viagem dizer aliviado e em paz: viajei bem, gostei da viagem, o motorista não correu tanto, ou só correu quando precisou acelerar, chegamos todos bem ao destino final, ao juízo final próprio, alheio, ou apenas à rodoviária. Chegamos bem graças a todos, cheguei bem graças a mim, inclusive, então, posso sair do ônibus e caminhar rumo à vovó. 


As crianças presentes no ônibus vão à casa da avó para passar o feriado da Páscoa. Você quer continuar ouvindo as crianças, internas ou externas ao ônibus e a você. Elas continuam falando das cores da vida. Então, lembre-se Tamar: importa conhecer e cativar alguém, importa amar alguém, importa ouvir Marisa Monte também. Ela canta que é preciso ter “atenção para escutar o que você quer saber de verdade”. Ah, reitero que conselho é uma forma de nostalgia. Além desses pequenos conselhos sobre um pouco de tudo isso, o que importa é que há tantos motivos que importam, que a vida vale a pena e, por vezes, é bem bonita. Foi um prazer conhece-la, temos ainda muitas fotografias para registrar das paisagens naturais, das crianças e até de nós mesmas, uma da outraO motorista, aquele que no início da viagem deu instruções aos passageiros, dizia ao final: “bom feriado a todos, bom fim de semana”. Você sorri, agradece ao motorista, mentalmente aos passageiros que viajaram com você, pela inspiração e pela companhia, sai do ônibus, para de escrever mesmo no bloco e sai da rodoviária com todas aquelas bagagens.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Desperdícios, dores e ah... braços.

Ela não gostava de desperdícios, sobretudo de comida, tempo, ingressos de concertos e, claro, dinheiro: aquele que permite comprar ingressos; trabalho; tempo alheio; alimentos, pimentão, pão, pastel, pepino, paçoca, mariola; instrumentos, violão, viola, violino, piano; a mistura de ambos, comida e instrumento, um pão perto do violão, um pepino que caiu no violino, a mariola sobre a viola, e um pote de paçoca querendo se aproximar do piano. 

Detestava também desperdícios alheios de recursos escassos, cuja disponibilidade e escassez pudessem variar conforme época e local considerados. Sabia que não era a única privilegiada em relação aos desperdícios. Ela também não gostava de dores e, da mesma forma, não era a única. Não gostava também de remédios que pudessem evitar e atenuar a dor. Mas um belo dia – nublado e chuvoso, no qual as flores, junto com o sol, se escondiam dos jardins – ela precisou desperdiçar ingressos exatamente por causa de dor. Perdeu o som dos violinos, dos violoncelos, das violas, das flautas, do piano e de toda orquestra, com a paz que a música traz, pela presença forte da dor em seu braço. Uma dor incômoda de dificultar movimentos. Ela queria apenas ter visto seu concerto ou, ao menos, ter feito sua yoga. A dor intensa permitia somente que se queixasse para si mesma sobre a condição de seu braço direito. Repetia em sua mente que havia perdido o concerto e que gostaria de se livrar daquela dor. 

De repente, não mais que de repente, separou-se da queixa. Mudou o semblante e seus pensamentos começaram a confortar não a dor física do braço, mas a dor de algumas ausências e de alguns estresses. Passava a se convencer de que o braço melhoraria em breve e de que não podia se queixar tendo comida sempre, ingressos, às vezes, música sempre, tempo, às vezes, e recursos escassos, quando bem administrados, poderiam ser suficientes. Então, o braço dolorido podia ser louvado, já que estava presente em seu corpo em quantidade suficiente, em conjunto com outros órgãos fundamentais como cérebro, pulmões, estômago, fígado, intestino, rins, entre outros investigados pelos médicos. Ah, e ele, o coração, claro, um órgão muscular que coloca todo o resto para funcionar. E “todo o resto” inclui mãos, para percussão ou para tocar piano, teclado, violino, violão ou algum instrumento não citado e que pode depender não só da mão para ser praticado, mas também da boca. Instrumentos como sax, clarim, trompete, gaita, flauta ou qualquer outro de sopro ou de vento. 

A boca, além de ingerir alimentos e servir para produzir sons em instrumentos musicais de vento, às vezes, deve se fechar e se calar por causa das moscas. “Todo o resto” inclui ainda: a) ouvidos, para detectar sons, eliminar potenciais ruídos do processo de comunicação e filtrar aquilo que a audição deve ou não considerar; b) narizes, que irritados produzem espirros e rinite alérgica, mas ajudam na respiração, no canto e também na detecção de cheiros, agradáveis ou não; c) olhos, que podem enxergar muito, enxergar pouco, enxergar muito pouco ou podem ser cegos, míopes ou até falar, o que é lindo, olhos falantes são lindos; d) pernas e pés que, juntos, permitem ao corpo o movimento, o dançar, o bailar, a dança e o mais belo baile de máscaras; e) braços. Finalmente, volto aos braços, que permitem às mãos levantar taças, promover brindes, organizar movimentos, da orquestra ou não, de esportes ou não. Eles servem tanto para a regência – do maestro, não do português – quanto para arremessos de peso, para cortadas, saques, manchetes ou toques do vôlei. 

Intimamente ligados às mãos, os braços conduzem abraços, apertados ou não, calorosos ou nem tanto. Os braços que abraçam e podem promover brindes precisam estar saudáveis para tudo isso... Sem dor, sem nódulo. Apesar disso, quando houver uma lesão, é preciso aceitar, porque uma lesão pode virar uma lição, um indicativo de que há algo de errado, mas, mesmo assim, os braços estão presentes, caso contrário, não estariam doloridos. Meus braços estavam lá no dia da dor e ainda estão em mim... Graças! Embora estivessem doloridos, estavam e o estar já bastava e basta. O simples estar do braço significava a possibilidade de abraçar as coisas e as causas. Além disso, a extensão de um órgão e a união com os demais, ainda que na presença do incômodo, permitiam a formação de um organismo que reclamava de um conjunto completo, de forma que talvez o corpo quisesse revelar algo além da dor de um nódulo muscular. 






Do conforto

Algumas pessoas, algumas horas, a partir de fotos, fatos e situações trazem questionamentos, oferecem dúvidas, desapontamentos e incertezas. Outras, mesmo sem perceber, pessoalmente ou com seus textos e canções, alimentam esperanças, confortam e disponibilizam, além de casa, calma, colo, consolo, carinho e cafuné. Afeto, apreço, alívio, acalento. Todas elas nos ensinam a dar tempo ao tempo, a ouvir o que a vida quer expor, traduzir, revelar, descobrir, falar e, às vezes, recusamo-nos a escutar, apesar de o coração também dizer. Como a menina, que já pequenina sentia e falava que era preciso escutar o que o coração diz, a mesma que deixava o sorvete cair por ainda não conseguir equilibrá-lo. Aquela que tentava aceitar todos os pretéritos: os perfeitos, imperfeitos e mais que perfeitos, por menos perfeitos que eles parecessem ser. Aquela que procurava aceitar que a admiração, o amor, a paixão, a paciência e a tolerância, assim como o tempo, passam. E que é preciso aceitar o passar do tempo e de tudo que nele se insere: horas, segundos, minutos, traduzidos em experiências, músicas, poemas, ais, oi e adeus, talvez em um até logo, em filmes e também em trilhas e películas sem tradução. Para ela, confortava a aceitação de que tudo tem seu lugar, tempo e momento; de que cada panela tem uma tampa; de que as angústias são atenuadas pelo tempo; de que cada frase tem sua pontuação, seja ela reticências, vírgula, um ponto aqui e outro ali, dois pontos, ou ponto final. Confortava o entendimento de que palavras nem sempre são necessárias, assim como algumas silenciosas lágrimas e a ausência. Confortava também a solidão e o pensamento de que algumas certezas um dia perdem o sentido. Só que, às vezes, confortava mais ainda um banho quente e demorado, apesar dos problemas do mundo, de distribuição de água, do aumento dos preços, inflação, guerras e conflitos, política e partidos, eleição e corrupção, enfim, bastava, para ela, naquele momento e lugar, um banho quente, tão quente quanto o leite com achocolatado antes de dormir.









segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Colorido, preto e branco or both

Um dia a gente percebe que a saudade tem dessas coisas. Tem um pouco de tristeza, de arrependimento, mas também de beleza, lembranças, cartas, cartões, canções, situações, aceitações: de si, do outro e das situações. Risos, sorrisos e altas risadas, ou aquelas tidas e contidas. Dedicatórias, mimos, histórias, compreensão, memórias, sonetos, apresentações, poemas e poesia... Muita. Caixas pros cartões e, por vezes, decisões, recitais, flores e dúvidas. Diante delas, procuramos porquês, percepções diferentes, perfumes parecidos ou nem tanto, pares, olhares, lugares confortáveis e uma música que também nos conforte. Tentamos achar o tom, o som; o Tom; o Caetano; o Vinícius; o Toquinho com sua linda Aquarela; a Marisa com seu Verde, Amarelo, Anil, Cor-de-Rosa e Carvão ou com aquela carnavália toda dos Tribalistas ou com aquela Veeeelha Infância, enfim, tantos artistas e cores que mal posso elencar as de Frida Kahlo. Também temos a Adriana, o João, a Maria, a Elis, ou importamos Ella abraçando o Jobim no tom ou, ainda, a Stacey com sua voz doce como mel ou algodão doce. Uma voz tão tranquila quanto um barquinho a deslizar no macio azul do mar. Ah, a Stacey sim canta de forma encantadora, tanto em português como em francês ou inglês. A calma de verão do cantar dela dá para sentir não só pelo barquinho dela, O barquinho, mas também pelas Águas de março naquela voz, pelo seu Samba de Verão ou apenas por um Samba de uma nota só, basta uma. Tentamos achar também a Tiê, o Mário, o Vinícius de novo e, então, outra canção. A Lua, a amiga, o garçom e, finalmente, o Cosmopolitan que ele vai nos trazer... Ou um drink bom também, mas baratinho. Buscamos entreter a saudade, distrai-la e diverti-la para que não nos incomode com suas dores e com a solidão. E, se for para sentir a solidão, que seja assim, de forma agradável e por completo, sem alguém na outra linha que tente consolar ou entender sentimentos alheios. Afinal, a solidão pode ser algo tão bom quanto o silencio. Acontece que, um belo dia, nossas - e novas - cores procuramos pintar, notar, anotar, guardar, escrever, borrar sem querer, reescrever, entender e até antever. Um dia a gente percebe que a saudade carrega um encanto, um canto -na voz ou não- e um cantar que pode encantar em qualquer canto, como a Stacey faz em Nova Iorque ou no Rio... Vozes e instrumentos agradáveis em uma música brasileira, em uma bossa, em um samba. Vozes nacionais e estrangeiras, agudas, graves ou nem tanto; femininas ou masculinas. A saudade carrega cheiros naturais e de frascos, importados ou nacionais; jeitos delicados, indelicados, gratos por agrados, ou nem tanto; desejos, estes gigantes; instrumentos: de sopro, de vento, de corpo alma e tudo, de cordas, de toque, de percussão. Então aparecem os tambores, os triângulos (não exatamente como os das contas de matemática do ensino médio), os pratos ou até as panelas, vazias ou não. A saudade carrega também alguns laços e acordes. Para que eu acorde, tu acordes e ele acorde também. O réveillon está aí não é à toa, mas precisamos despertar antes. Then, after dreaming of you and me, nous nous réveillons. Que acordes para um acorde ou acordo matinal, tríades maiores ou menores no piano e as flores sobre ele, ou perto, espalhadas pela sala de estar. Cores, tentativas, experiências, excessos, distâncias, perdas, encontros, palavras, despedidas, palpites, laços, palavras, medos, males, mal-entendidos, verdades e faltas. Um dia a gente percebe que a saudade adormece, a gente vai esquecendo enquanto a música diminui, vai esquecendo, esquecendo e esquece. Amadurece e envelhece, seja com um fio de cabelo branco ou vários deles. Com tinta no cabelo ou nem tanta, o ciclo da vida vai passando com o passar das músicas. Elas tocam enquanto a gente toma um chá, ou vários deles, daí vem o refrão e repete tudo... Letras, músicas, filmes, sentimentos, trilhas, películas, salas de cinema e de aula, os escritórios e os escritos, as marchinhas e os blocos de carnaval, parentes e presentes do Natal, os aniversários e as festas, as conquistas ou as frustrações - às vezes inevitáveis - de algo que não ocorreu conforme planejado, enfim, o preto e branco ou o colorido da vida. Ou a vida, ora em preto e branco ora colorida.