Durante cerca de três horas e meia de conversa constante, chegam a mesmíssima conclusão da moral da história de "a lebre e da tartaruga". A sábia fábula tem como moral a conclusão de que “devagar se vai ao longe”, cada um com um jeito e uma velocidade, mas com a noção de que a persistência e o esmero levam à moral de que realmente devagar se vai ao longe [reforça-se aqui o Realmente se Vai]! Cada um no seu tempo, com variadas velocidades e cores, cada qual com suas flores e percepções sobre a viagem e sobre uma vida que ora é em preto e branco, ora colorida. O importante é pintar, desenhar, colorir ou até descolorir e descobrir. Colorir sozinha ou com seu priminho de apenas três aninhos. Pode ensiná-lo a desenhar corações, estrelas ou perceber que a visão dele sobre o Céu, as estrelas e os corações pode ser ainda mais linda. E se tais visões não forem comparáveis, ensina-se que não o são e que as dele podem ser tão belas quanto ele quiser e conseguir realizar [ou não] o que quiser. As percepções dos passageiros no mesmo ônibus são diferentes, o que é lindo: a diversidade de opiniões, em um ônibus qualquer que carrega passageiros em direção similar ou nem tanto.
Outra passageira se despediu do
motorista do ônibus, agradeceu e desceu com sua criança. Os passageiros
continuaram naquela viagem depois que você saltou, Tamar. As pessoas do banco
da frente diziam que a viagem não tinha sido cansativa... Nada cansativa. Naquele momento, pensou-se que "a viagem
tinha sido ótima, eu e Tamar nos conhecemos, nem usamos os fones e os celulares
apenas registraram o momento a partir de algumas fotos". Enquanto íamos por aquele trajeto,
a Marisa Monte e o Nando Reis já haviam anunciado que enquanto íamos pela
manhã, em certas regiões, já anoitecia. Enquanto íamos por aquele trajeto, as
crianças lá no ônibus [algumas atrás outras na dianteira] perguntavam
continuamente “estamos chegando mamãe, estamos chegando”? Exatamente o que fazem as crianças em viagens longas de carro com a família. Milhares delas, na infância, ficam o tempo todo querendo chegar logo aos seus destinos [ou ao destino destinado pelos
pais] para determinadas viagens.
Uma das crianças [pela voz, percebia-se, naquele momento, que era o mesmo menininho] dizia: “Estamos chegando né, mamãe?”. Suas perguntas [igualmente] constantes pareciam leva-lo a chorar
porque ainda não havia chegado ao final destinado pelos pais. O mesmo menininho, lá no fundo do ônibus,
gritava, ao mesmo tempo que falava de cores: “tem azul, amarelo; amarelo e
azul”. Ele falava das cores que via, não das cores dos álbuns da Marisa, dos
filmes de Almodóvar, nem das cores de Frida Kahlo; ou de demais musicistas, diretores,
pintoras ou quaisquer artistas que talvez nem conhecesse. O menininho falava
das cores que queria ver, conhecer e talvez pintar. O menininho continuava lá no ônibus
perguntando à mãe sobre o tempo daquela viagem, o que, de modo traduzido para a
linguagem infantil, significava “estamos chegando na vovó, mamãe”? Nem é na
casa da vovó que a criança falava, era direta e sinceramente “na vovó” que o
menininho queria chegar, embora o destino da família fosse a casa da avó do
menino. Na visão das “pessoas grandes”, eles dois [menino e mãe] chegariam a
uma casa, a uma construção de concreto, construída por pedreiros com tijolos,
cimento e demais materiais de construção. Com tintas de diferentes preços e
marcas para colorir casas, lares e construções de modo geral. Os dois poderiam
chegar a uma mera casa ou a um lar, cheio de possibilidades. Poderiam chegar à
casa ou ao lar da vovó.
Você levava as suas ideias e o que havia
percebido em algumas horas ao lado de outra pessoa. A outra pessoa havia
saltado antes e, em breve, você saltaria, sabia que saltaria do ônibus depois da
Tamar, porque os destinos eram diferentes. Aconselhava a pessoa ao lado de que
as experiências são válidas, já que aprendemos com elas o que fazer ou, pelo menos, o contrário... O que não fazer! Buscamos
aprender e a Tamar parecia buscar... Então, na realidade, a Tamar talvez nem precisasse de tantos conselhos, mas conselho é mesmo uma forma de nostalgia. Então, depois que ela saltou, você deixou as demais
pessoas com suas percepções e não compartilhou a sua com mais nada nem ninguém, além do
próprio bloco de notas. Enquanto o ônibus não chegava ao destino, você anotava,
escrevia, aguardava, tentava guardar o bloco e ficava com as perguntas, as respostas, as
palavras, as vozes e a pureza das crianças falando sobre cores, sobre a chegada
ou sobre os caminhões e caminhos da estrada. Você decidiu [e decide] ficar com a pureza das
respostas e dos questionamentos infantis, porque isso também é vida... A vida é bonita, é bonita e é bonita mesmo! Você acredita que é e sente que ela, embora finita e injusta, vale a
pena.
Você sabe e sente que a vida vale muito e que uma hora a viagem acaba, descalça no parque, ou não, deitada em outro lugar,
com pessoas queridas ao redor ou nem tantas. Você sabe e sente que o ônibus vai
chegar em breve no interior de Minas e que qualquer viagem, em algum momento,
chega ao fim, porque [assim como para cada panela há uma tampa] para toda viagem há um destino final. Então, as respostas
das crianças são respondidas pelas mães “sim, chegou” e aqueles pequeninos seres continuam falando das cores. A vida continua bela se repararmos as
simplicidades dela, da preciosidade denominada vida; se repararmos alguns
comportamentos das crianças e repararmos nelas, em vez de tentarmos modificar tanto as "pessoas grandes" que não querem ser reparadas. Porque as crianças continuam falando das cores e o amarelo já havia virado Yellow no ônibus. E elas continuavam falando das cores...









