Naquele dia nublado e frio, senti o profundo vazio de te ver partir ao acordar. Levantou-se e, com tamanha frieza, juntou as roupas sobre a mesa e fez a mala. Enquanto, na sala, eu te observava ir embora. Livros e vinis ficaram e oito meses se passaram. A casa, os chás, os cafés, as xícaras e os discos sentiam sua falta. O meu olhar demorado, agora amedrontado, receava sua constante presença longe de mim. O meu aflito sorriso dizia que era preciso permanecer bem. Meu rosto era desgosto e saudade e eu respirava vontade de ver você voltar. No quarto, o som havia mudado o tom, ocultando as notas mais sonoras. E as horas demoravam a passar. Até as aquarelas mais belas, com temor, haviam perdido a cor. E o Sol, agora bemol, cantava a tristeza. Até o travesseiro sentia falta do seu cheiro. As dúvidas me acompanhavam enquanto eu adormecia com aquelas palavras e canções. Eis que por um momento meu pensamento se volta à realidade. A saudade chega ao fim com você perto de mim e os esclarecimentos. Quando, entre contos e reencontros, explica-me, com zelo, que aquilo era apenas pesadelo.
"[...] e, sob um ímpeto irresistível, expusera seus sentimentos em um pedaço de papel [...]". Em um bloco de notas, em uma máquina de escrever alemã ou diretamente nas ferramentas modernoLógicas do tal do computador.
domingo, 28 de julho de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
Misteriosas melodias.
Naquela noite de lua cheia, já de pijama, ela se penteia e calça sua meia, preparando-se para dormir, ou ver um filme. Saboreando notas musicais em seus cafés, com os pés entrelaçados e não mais gelados como antes, apesar do frio do inverno, ela pensa em decisões a tomar com chá e canela. Janela aberta, coberta sobre a cama, ela engolia o drama de não poder vê-lo. Ele era seu vício, o início de sua inquietude. E ela admirava o jeito como ele havia chamado sua atenção, tocado seu coração e cabelo, anunciando que roubaria sua paz, para não mais devolver. Seus sentimentos ele também queria. E ser o motivo de sua alegria, e ser sua fiel companhia e o dono da sua falta de sono. Mas ela não imaginava o quão importante ele poderia se tornar. E a magia daquela noite fria e enluarada não era decifrada em sua mente. Com o pente ainda na mão, ela escutava uma melodia serena... Uma pena ele não estar lá para acompanha-la. Nem poder dançar, ou cantar, com aquela que jogava ao mar seus embrulhos de tristeza. E ela relembrava em seus pensamentos os momentos que haviam passado juntos. Naquele baile, a cada passo, um laço, um traço, um compasso diferente. Em cada abraço, um suspiro envolvente. Ela guardava para ele seus sonhos mais belos, enquanto aguardava os elos mais importantes daquela trajetória. Em suas memórias, estórias e conversas revividas. Em seus beijos na testa, uma festa de respeito e carinho. E no caminho dos dois, palavras ditas, laços de fitas, novos acordes, ritmos desconhecidos, sonhos em harmonia e melodias de mistério.
domingo, 7 de julho de 2013
Ah, o amor.
Que seja doce o nosso amor, com
umas pitadas de pimenta. Assim como balões coloridos, que ele seja leve. Que
releve a adversidade e que a saudade se torne suportável a cada instante. Que seja
constante a vontade de estarmos juntos. Que possamos dividir sorrisos e
jantares. Que os olhares sejam sinceros. Que seu cheiro não saia do meu
travesseiro, enquanto você se esconde debaixo das cobertas e descobertas que
colecionamos. Que tenhamos inspiração para contos e que os reencontros
provoquem só suspiros... só nossos, como nossos nós e laços. Que os abraços
continuem apertados. Que eu seja o motivo da sua felicidade e você a razão dos
meus olhares apaixonados. Que basta um instante para me tirar o fôlego e
milhares deles para me aquietar o espírito. Que a nossa verdade se combine e
você se incline para me dar um beijo de boa noite, enquanto diz que quem
derrete seu coração sou eu, não este tempo... tão quente, tão nosso.
terça-feira, 2 de julho de 2013
A carta.
Entre um laço e uma memória, há uma história. Pequenos traços da trajetória deles. Era início de um mês esperado. O céu estava nublado e no correio havia um recado. Era dele e anunciava o quanto ele queria a companhia dela naquele dia chuvoso de inverno. Daqueles que, sem capelo, deixam o cabelo sensualmente molhado ou encharcado de mistério. A chuva continuava caindo enquanto ela terminava de ler a carta. Aquelas palavras, junto com a garoa, provocavam lágrimas... Ela sentia a falta dele. E também do que ainda ocorreria. Era uma estação com cheiro de saudade e olhares de verão. Um tempo em que a emoção jogava a razão no chão... sem amparo, sem lenço, sem chapéu, ao léu. Um tempo em que ela percebia que já não estava mais sozinha e, dele, era a rainha. Em um destes breves encontros com a paixão e o amor, ela decide abraçar as descobertas e largar as cobertas de dúvidas deixadas sobre a cama. Põe a meia e se penteia para dormir. Eis que revela à Lua a verdade nua e crua de seus sentimentos. Eis que anuncia ao Céu uma verdade sem véu. E demonstra sua saudade. E busca sua vontade mais bela. De que a verdade dela seja também a dele. De sentir toda aquela reciprocidade e avisar à rua inteira que, de qualquer maneira, dariam um jeito de ficarem juntos, pois eles próprios já sabiam pelos próprios olhares e sentidos, mas evitavam saber.
Nossas notas.
Ela não via a hora de conversar com ele novamente. E, de repente, rever aquele sorriso, sincero e preciso, a transmitir tanto sentimento. Sentada no piano, coberta do pano daquele traje longo, ela ensaiava. Revivia em cada tecla uma mescla de suas memórias e de seu presente. E era ele agora. Entre um bemol e um sustenido, ela observava que, no seu vestido, não havia mais nota alguma do passado. Ao prosseguir a canção, refletia sobre a melhor saudação para aquele que roubava sua tristeza e a escondia. Aquele que dirimia as feridas vividas com outro. Por um momento, abandona o instrumento e volta seu pensamento para os tempos de criança. Dança pelo salão, relembrando as bolinhas de sabão que assoprava quando pequena. Com a alma calma e serena, escreve para ele um bilhete: “guarda a saudade e me aguarda que estou chegando”.
Vestido alaranjado.
Cabelos ao vento, sem bolso, sem documento, pensamento voltado para ele com alegria, ela cria que ficariam juntos. Naquele tempo de Verão, com ele no coração, ela era pura saudade. Dia ensolarado e colorido, ela põe o vestido preferido e começa a bailar. Com seu colar de pérolas guardado e traje alaranjado, brincava lado a lado com as lembranças. Crianças por perto conversavam, revelando a pureza do local. Elas também cochichavam sobre a beleza do casal. A vinda dele se aproximava e a felicidade eles viveriam... Um afeto, um afago, um abraço ao redor do lago. Uma carícia sob as árvores, mesmo se o tempo mudasse e gotas de chuva caíssem em suas roupas. Durante horas, entre um sorriso e um passo, um ensaio e um laço, ela resgatava em sua memória a história dos dois. E dançava sobre o verde da grama. E cantava sem drama. E respirava o anil do céu. E deixava cair seu anel. E abaixava para pegá-lo.... sem deixar a canção parar, sem perder o brilho no olhar, sem pensar em outro par.
Dias de inverno.
No piso da sala, a mala ainda a desfazer. E no som, uma canção para aquecer meu coração nestes dias frios de inverno. Na bancada do quarto, lembranças. E no chão, quadros a serem pendurados. Nos pensamentos, você... Para me fazer perder a noção da hora, abraçar-me sem demora e arrancar meus sorrisos mais sinceros. Para fazer brilhar meus olhos e me inspirar. Para esconder meus receios e incertezas sob a cama e me colocar para dormir sem preocupações. Para uma dança ou uma mudança em minha vida. Um calor ou uma acolhida nestes dias, em que a primavera levou as flores com ela. Quero que você as devolva para mim. Traga junto às flores as cores, porque sinto falta de olhar pela janela aquele tempo de aquarela, colorido e ensolarado. Traga também um punhado de estrelas, para que eu me lembre de você ao tentar conta-las no Céu. E um pote de mel. Traga também seu calor para descongelar os corações frios e mal-humorados do inverno. Quero também esse sorriso bobo que você carrega no rosto só para mim e nunca se esqueça de que você fica lindo com ele.
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